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Colônia de Pescadores Z-13, em Copacabana, completa 100 anos de fundação


Colônia de Pescadores Z-13, em Copacabana, completa 100 anos e segue as tradições da pesca artesanal

Cleber Mendes / Agência O Dia


Rio - Estabelecida em um pequeno canto do Posto 6 da Praia de Copacabana, na Zona Sul, e envolvida por grandes amendoeiras, a Colônia de Pescadores Z-13 completa cem anos de existência oficial como se tivesse parado no tempo. Não há grandes barcos, sinais agudos de sonares, redes de arrasto e apetrechos industriais. Toda a descarga de pescado do local vem da pesca artesanal, em um ritual diário que une a força humana à natureza com baixo impacto no meio ambiente.


A colônia fundada em 29 de junho de 1923, Dia de São Pedro, santo padroeiro dos pescadores, resiste à modernidade e coloca os seus barcos na água, todos os dias, seguindo tradições. A mudança com a ação do tempo são as embarcações. Antigamente, prevaleciam as traineiras e canoas de madeira. Hoje, os barcos com motor a diesel são maioria e, quando não estão no mar, ficam atracados na estreita faixa de areia, ao lado do Forte de Copacabana, junto a alguns banhistas e dezenas de redes de nylon, confeccionadas e reparadas pelos próprios pescadores. Os consertos realizados nas embarcações de pequeno porte que podem ter, no máximo, 20 toneladas, também são realizados pelos profissionais, assim como o processamento do produto pesqueiro.


Após navegarem por horas, ainda pela manhã ou no início da tarde, os profissionais vendem ali mesmo na colônia, em uma estrutura de alvenaria dividida em 20 boxes numerados, o alimento que acabou de ser retirado do mar, em um encontro entre o consumidor e o pescador. O lucro é dividido diariamente entre os tripulantes de cada barco. O produto que não conseguiu ser comercializado ali, acaba na Central Estadual de Abastecimento (Ceasa), o que não é muito lucrativo para os pescadores. Além de terem que pagar uma taxa por caixa de peixe que entra na Ceasa, o pregoeiro do local ainda fica com 10% do lucro, e os trabalhadores não recebem o pagamento no mesmo dia.


Se as colônias foram instituídas pela Marinha do Brasil entre 1919 e 1923, a comunidade existe antes. Os pescadores já ocupavam aquele espaço e foram os primeiros moradores de Copacabana (quando o Forte de Copacabana, ao lado da colônia, começou a ser construído, em 1908, eles já estavam naquela região), sofrendo, posteriormente, um processo de desterritorialização com a urbanização do bairro e aterramento de grande parte da areia da praia. Da beira do mar, onde tinham as suas casas, os pescadores tiveram que se mudar para os morros. Atualmente, a maioria de seus 40 associados mora nas comunidades do Pavão-Pavãozinho, Vidigal, Rocinha e Cantagalo.


A ideia do governo na criação das colônias (foram instituídas mais de 800 por todo o litoral brasileiro, sendo a Z-13 a mais antiga do estado do Rio) era normatizar e nacionalizar a pesca, além de dar garantias aos profissionais, então majoritariamente analfabetos e exercendo a atividade em condições precárias. Mas nem tudo é um mar de rosas. O surgimento de barcos pesqueiros com equipamentos como sonar e satélite, ambos para detecção de cardumes, GPS e redes de arrasto, e que podem também ter até 20 toneladas, causa desgaste na pesca e ameaça a atividade autônoma e de regime de economia familiar da pesca artesanal. José Manoel Pereira Rebouças, presidente da Colônia de Pescadores Z-13, lamenta a falta de regulamentação mais rígida para a atividade industrial.


"Esses barcos que estão com equipamento moderno são um problema que a maioria dos pescadores está sofrendo, porque esses barcos não foram regulamentados a alguma distância da costa. Isso está sendo uma polêmica porque esses barcos estão com equipamento totalmente ligado no satélite, localizando todos os cardumes. E cercam desde 200, 300 metros da vila da praia. Então, para esse tipo de modelo de pesca, que é o nosso, que é um modelo muito mais controlado, preserva muito mais, e emprega muito mais, está sendo um desgaste, não só para o trabalhador, como também para as próprias espécies de peixes. Eu acho que a regra tem que ser alinhada para depois não estarmos nos perguntando onde estão os peixes, pois terão acabado. Mas isso aí é uma guerra. Aquele pescador é artesanal? Não é, mas na lei é. São manobras que às vezes acontecem por falta de uma conversa de ajustamento, para que a pesca artesanal, de pequeno porte, consiga sobreviver em gerações a gerações, para que preserve esses trabalhadores ao longo do tempo. Você olha aqui, parece que a gente congelou no tempo, né? Barquinho pequeno, a gente usa um pequeno espaço das águas. Eu acho a gente corre o risco de mais tarde desaparecer por conta da pesca predatória e isso seria uma coisa muito triste", afirma o presidente.


Ele se refere à pesca das traineiras modernas ser também considerada artesanal pela lei e, assim, poder desfrutar da regra de distância mínima de 200 metros da costa. A reportagem flagrou um modelo deste tipo de embarcação passando a pouco mais de um quilômetro de distância.


"Se ali ele localizar um cardume de sardinha, corvina, anchova, pescadinha ou de qualquer outra espécie, porque vai ligado no sinal de satélite, ele vai cercar estando próximo à costa. Com os aparelhos, ele já viu que ali tem cinco toneladas de peixe, por exemplo, então pesca e leva embora. Essa distância de 200 metros não deveria ser permitida para esse modelo de pesca. Nós, de barco pequeno, vamos a 7, 8, 9 quilômetros da costa, enquanto esse barco com satélite e sinal sonar às vezes chega a ficar aqui, a menos de 200 metros da praia. É uma coisa que precisa ser ajustada, para que a atividade pesqueira, a mais simples que seja, tenha sustentabilidade e que a gente possa respirar tranquilo sabendo que o barco que faz esse tipo de pesca não atua em uma área onde outro modelo de pesca produz", completa. Mas o que é uma colônia de pescadores?

As colônias foram instituídas como organizações sociais que representam a classe dos pescadores, para intervir a favor da atividade junto ao governo brasileiro. É como se fossem sindicatos, com princípios de livre organização e não interferência do poder público. Para fazer parte, o pescador deve estar com o Registro Geral de Pesca (RGP) em dia.

Além de ser local de trabalho, a Colônia Z-13 atua como um ponto de referência e um lugar de encontro para os pescadores artesanais, oferecendo apoio, representação e ações a favor do desenvolvimento sustentável da atividade pesqueira. Histórias de pescadores

Diariamente, os pescadores artesanais colocam os pés na areia com notícias do mar. Umas boas, outras ruins. João Valério, de 26 anos, o pescador mais novo da Z-13, voltou para a praia, na última quinta-feira (6), com um grande alívio, além das duas caixas com peixes nobres:

"Hoje foi muita adrenalina, o mar está mexido, foi difícil para entrar e sair. Para piorar, a minha rede fica na rota dos navios. Quando eu e a tripulação estávamos puxando a rede, veio um navio em nossa direção. Ele desviou, então a gente continuou puxando a rede. Mas do nada, o navio veio novamente na nossa reta, não saiu e não buzinou. Tivemos que desesperadamente cortar a rede e tirar o barco do caminho dele. Foi Deus na minha vida, um livramento que Deus proporcionou", desabafa.

João começou a pescar aos 17 anos com o meu pai, associado da colônia, mas apenas por diversão. Um pouco antes de o pai morrer, em 2020, ele prometeu que ia trabalhar no barco da família e cumpriu o acordo, passando, então, a tirar o sustento do mar.


"O que me manteve de pé e de cabeça erguida foi o mar. A pescaria é uma terapia da minha vida. Todos os dias, quando vou para o mar, me sinto tranquilo e mais calmo. Eu amo o que eu faço, gosto demais, e daqui até muitos e muitos anos, se Deus permitir, estarei pescando", afirma.

Já Manasi Rebouças, de 34 anos, filho de Manuel, conta que nunca passou por nenhuma situação de perigo e que coleciona boas histórias pescando, mas se incomoda com a perda gradual da abundância de peixes, consequência da pesca predatória. Ele lembra de uma vez, há uns anos, que voltou do mar com o barco atolado de pescado:

"As minhas melhores histórias são pescando. Boas pescarias de bastante peixe de rede, que é uma coisa boa para gente, quando puxamos a rede e vem muito peixe. Tiveram dias que a gente veio botando tanto peixe que o barco até veio meio baixinho. Mas os anos vão diminuir essa cota. A gente fica feliz quando pega, mas também fica triste de alguma forma", conta.


Um episódio curioso foi quando, em um dia de ressaca do mar, os trabalhadores, com medo, tiraram a rede que tinham colocado no oceano. Manasi fez o contrário, colocou a rede e voltou com muito peixe. "Tem uma história legal que foi quando entrou uma ressaca de mar, todo mundo ficou com medo e trouxe a rede para a praia. Em vez de eu trazer a minha rede, eu a coloquei. No dia seguinte, foi muito peixe na rede, quase que eu não conseguia trazer tanto peixe. Aí todo mundo foi atrás. Agora, quando o mar está de ressaca, eu sou um dos únicos que sai", diz.

Nos meses de julho, agosto e setembro é a época de bicuda e anchova, ocasião em que Manasi vai sozinho para o mar à noite praticar a pesca de linha, como chamam a pesca de anzol: "É quando essas espécies começam a desovar, então vamos para o arquipélago das Ilhas Cagarras, as ilhas Rasa e Redonda, pescamos a noite toda e conseguimos bastante coisa", entrega.

César Cardoso de Souza, de 49 anos, se recorda do dia em que perdeu uma caixa de peixes para uma baleia que cercava o seu barco com alguns filhotes: "Ela queria comer meus peixes da rede, então eu tive que jogar uma caixa de peixe na água para ela se afastar do meu barco. Ela ficava muito perto do barco ali e a rede tinha muito peixe na rede. Eu estava morrendo de medo da calda dela, de levar uma rabanada, a calda dela era gigante, tinha o tamanho do barco todo. Eu estava com medo e tive que perder uma caixa de peixe. Joguei os peixes no mar, a água foi levando-os embora e ela foi atrás. Meu companheiro de trabalho até brigou comigo, mas o que eu poderia fazer? O barco é meu, eu que teria que consertar. Achei melhor ficar sem os peixes", diverte-se.

A pesca ainda provoca reações diárias em César, mesmo estando no cotidiano do trabalhador há mais de 25 anos. "De manhã cedo, sentir a maresia entrar no nariz é maravilhoso. É que nem quando se está na Amazônia, ouvindo o som dos pássaros gostoso de manhã no teu ouvido. O barulho do mar é uma coisa deliciosa, o silêncio, o barulho só das ondas. Eu vou puxando a rede e os peixes falam comigo. A panagem (tecido que forma a rede) é o papel em branco dos peixes. E os peixes são as letras. Eu vou puxando, eu vou lendo os peixes para encontrar respostas de até onde posso ir, se tenho que mudar de lugar ou se fico ali mesmo. Cada panagem que eu puxo é uma leitura. Cada página de panaria que eu puxo é uma folha que eu leio. Até acabar a rede eu vejo o que eu vou fazer na pescaria. Eu levo desse jeito, outros pescadores levam de outro jeito, é assim mesmo", relata, emocionado.

Quando o assunto é perigo, Manoel, que tem 64 anos e pesca há 50, relembra o náufrago que sofreu quando ainda morava no Ceará, antes de se mudar para o Rio. "Já aconteceu cada virada de eu ficar no meio do mar perdido, esperando por socorro. O meu náufrago mais longo foi das 7h às 15h. Eu estava com mais dois pescadores. Aqui no Rio, eu passei também por outros vários momentos cavernosos, porque esses barcos pequenos são muito vulneráveis à tempestade. Já peguei várias tempestades, já achei várias vezes que não conseguiria voltar, mas graças a Deus, sempre voltei. Não quero que isso aconteça nunca mais", frisa. Peixe fresco

Para que a tradição continue resistindo ao tempo, Manoel afirma que é preciso atrair pessoas mais jovens para a profissão. Ele destaca que o desgaste da pesca artesanal, junto com a grande quantidade de plástico e a pesca predatória de alto porte têm afastado os filhos dos pescadores veteranos.

"Muitos pescadores antigos não conseguiram deixar os seus filhos na atividade. Falando à nível de costa brasileira, o grande esforço de pesca e as histórias ruins desse trabalhador que precisa apenas de um pedacinho de água, uma tarrafa, um pequeno barco e um pequeno pedaço de rede para sobreviver geraram um desgaste muito grande no filho e no neto que poderiam levar a profissão adiante na família. Quando o trabalhador é surpreendido com outro modelo de pesca, tendo que se mudar daquele lugarzinho que ele por anos ele fez o seu ganha-pão todo dia e agora não consegue mais nada, frustra toda a família. Além disso, tem também a questão da especulação imobiliária que afastou mais ainda o trabalhador de perto da praia. É uma avalanche que vai destruindo toda uma comunidade que daqui a pouco pode desaparecer", pondera.


Em um esforço para contornar a situação, a Colônia de Pescadores Z-13 acabou de formar a primeira turma de jovens para a pesca artesanal, através do projeto 'Formação de Jovens para Pesca' uma medida compensatória estabelecida pelo 'Termo de Ajustamento de Conduta' (TAC) de responsabilidade da empresa Prio (antiga PetroRio) e conduzida pelo Ministério Público Federal (MPF-RJ).


O objetivo é envolver jovens na pesca artesanal, valorizando os conhecimentos tradicionais e preservando a identidade dos pescadores, além de renovar o quadro institucional da Colônia Z-13. As aulas incluíram ações de fortalecimento institucional por meio do associativismo, em uma tentativa de tornar a pesca mais atrativa para as novas gerações de pescadores artesanais. Além disso, foram oferecidas capacitações, fornecimento de materiais de pesca, aulas de educação ambiental e novas oportunidades de geração de renda para esses jovens.

O curso formou 17 alunos e terminou com uma solenidade de entrega de diploma, no último dia 24, no salão nobre do Hotel Fairmont, que fica em frente à colônia.


"Nós conseguimos mais de quase 40 inscrições. Eu conversei com todos os pescadores que tinham filho com idade acima de 16 anos e depois anunciamos nas redes sociais e nas comunidades mais próximas, como Vidigal, Rocinha, Cantagalo, Pavão- Pavãozinho e Chapéu Mangueira. Nisso, tivemos uma invasão de pessoas muito rápida, né? E aí fizemos uma seleção, já que eram só 20 vagas, escolhemos aqueles que ganhavam menos e aqueles que estavam mais próximos", conta Manoel. Exposição 'Colônia dos Pescadores Z-13 – 100 anos'

Para celebrar as atividades e personagens da Colônia de Pescadores Z-13 e contar para a sociedade a história e o legado desses pescadores que desempenham um papel significativo na cultura e na economia, a exposição fotográfica "Colônia dos Pescadores Z-13 – 100 anos" ocupa o 'Espaço Azul' (centro de visitantes) do local. A iniciativa é patrocinada pela OceanPact, com apoio do Instituto Mar Urbano (IMU). A mostra combina fotografias históricas de Marc Ferrez (1843-1923), considerado o mais importante fotógrafo brasileiro do século XIX, parte da coleção Gilberto Ferrez, do acervo do Instituto Moreira Salles (IMS), e fotografias documentais de Andre Arruda, um dos curadores da exposição. A visitação é gratuita, de quarta a domingo, das 10h às 17h, até o fim deste ano.

"Os pescadores artesanais são importantes para a obtenção de dados e informações sobre a saúde dos ecossistemas marinhos. A experiência desses pescadores possibilita, por exemplo, a detecção e monitoramento das mudanças nas populações de peixes e do comportamento dos animais ao longo do tempo", conta Ana Lyra, gerente de Sustentabilidade da OceanPact. "A Z-13 é o meu lugar favorito do Rio. As tecnologias mudam, as câmeras evoluem, mas o ritual milenar de colocar o barco na água pela força humana permanece. Todos os dias. É uma metáfora da vida", afirma Andre Arruda. André conta que ainda não conseguiu fotografar todos os pescadores associados da Z-13, mas pretende fazê-lo até janeiro de 2024: "Estou fazendo um material para um livro sobre a Z-13, comecei a fotografar em janeiro deste ano e quero tentar um ano de ciclo. A pesca artesanal é um dos rituais mais humanos que existe que nenhuma outra vai substituir. A virtualização do pescador artesanal nunca acontecerá. O futuro passa pelo meio ambiente e pescador é a atividade laboral que mais depende de um meio ambiente saudável", finaliza.


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