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Conheça as muitas possibilidades de uso da pele de tilápia na medicina

Pesquisadores atestam que o produto apresenta resultados melhores quando comparado às peles de suínos e bovinos

Pele utilizada em pesquisas da Universidade Federal do Ceará é doada por produtores da região de Fortaleza - Foto: Divulgação/Fapesp


Criado em 2015 pelo médico Edmar Maciel, pesquisador da Universidade Federal do Ceará (UFC), o método pioneiro de usar pele de tilápia na recuperação de queimaduras teve viabilidade comprovada para utilização em outras áreas da medicina, entre elas, a ginecologia.

Estudos realizados na Maternidade Escola Assis Chateaubriand, também da UFC, já estão em fase clínica, para recuperação de pacientes ginecológicas com necessidade de reconstrução vaginal e em cirurgias de mudanças de sexo. O objetivo, ao desenvolver uma prótese biológica 100% nacional, é alcançar uma alternativa eficaz e de baixo custo às opções já existentes no mercado internacional - próteses artificiais ou biológicas (feitas a partir de suínos e bovinos) e cujos valores inviabilizam acesso à grande parte da população brasileira.

“Nosso objetivo, a longo prazo, é disponibilizar aos pacientes uma alternativa extremamente eficiente e com baixo custo à rede pública”, informa o médico Leonardo Bezerra, que coordena o projeto na área de ginecologia e atua ao lado da médica Zenilda Vieira Bruno.

A pele de tilápia utilizada na pesquisa é doada por produtores de pescado da região de Fortaleza (CE), pois é excedente da criação e seria descartada, o que torna todo o processo mais barato. O produto também apresenta resultados melhores quando comparado às peles de suínos e bovinos.

“Comprovamos em pesquisas que a tilápia não apresenta doenças e bactérias intercambiáveis com a saúde humana, como é o caso dos suínos e bovinos. Por isso, o preparo precisa de menos radiação para torná-la viável, o que resulta em peles com mais colágeno”, declara Bezerra.

Na reconstrução vaginal, a cirurgia consiste na recriação no canal vaginal em mulheres que nasceram com deformidades ou sofreram efeitos colaterais de tratamentos oncológicos com uso de radioterapia.

O uso para redesignação sexual masculino/feminino também já é uma realidade. Após o sucesso no uso em ginecologia, a equipe brasileira foi procurada por especialistas em redesignação sexual de Cali, na Colômbia, e foi realizada uma parceria. “Capacitamos esses profissionais, e mais de 60 cirurgias já foram realizadas com êxito”, comenta Bezerra.

No Brasil, a equipe já fez cirurgias de redesignação em fases clínicas da pesquisa, na UFC e em parceria com a Unicamp, em Campinas (SP). Segundo o médico, questões burocráticas impediram o avanço da prática até o momento.

“Acreditamos que a partir desse ano seja possível caminharmos com o processo de aprovação. Estamos prontos e aguardando aval. Nosso objetivo é sempre diminuir custos cirúrgicos e tornar as práticas mais acessíveis", completa o especialista.



Médico e pesquisador Edmar Maciel desenvolveu método de uso da pele de tilápia na recuperação de queimaduras — Foto: Universidade Federal do Ceará


Preparo segue várias etapas

O cirurgião plástico Edmar Maciel lidera um grupo de pesquisas com pele de tilápias desde 2015, ao lado do médico Manoel Odorico de Moraes, ambos professores da Faculdade de Medicina da UFC. O estudo teve início quando eles abraçaram uma ideia original do cirurgião plástico Marcelo Borges, professor da Faculdade de Medicina de Olinda (PE).

Em sete anos de atividades, o uso da pele de tilápia para tratamento de queimaduras se consolidou como alternativa ao uso de pele humana (via bancos de peles) e pele de porco, entre outros materiais.

Com resultados consistentes, os estudos foram patenteados e os respectivos produtos estão prontos para ir ao mercado. Inicialmente os responsáveis pela iniciativa informaram à Globo Rural que a empresa Enel - do setor de energia, que patrocinou o projeto entre 2015 e 2017 - comercializaria o produto.

Após a publicação da reportagem, a equipe esclareceu que escolha ainda não foi feita e o processo ainda está em andamento. De acordo com a legislação, apesar das manifestações de diversos interessados, apenas um pode ser escolhido, o que deve ser feito até o meio do ano. A seleção é necessária porque, para entrar no mercado, é preciso transferir a tecnologia para a empresa parceria.

A equipe da UFC prepara as peles recebidas de produtores, envia a São Paulo, no IPEN (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares) para a radiação, e as recebe de volta. O tratamento permite armazenamento por até dois anos.

— Foto: Revista Pesquisa Fapesp

A ideia é promover qualidade de vida aos pacientes, que sofrem com os procedimentos dolorosos disponíveis no SUS atualmente. “Na rede pública brasileira, o tratamento local de queimaduras é feito com a pomada sulfadiazina de prata, na grande maioria dos serviços de queimados”, explica o médico.


Na Europa, nos EUA e em alguns países da América do Sul este mesmo tratamento é realizado com pele humana (homóloga) ou animal (heteróloga). O Brasil nunca teve uma pele animal registrada na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e disponibilizada pelo SUS (Sistema Único de Saúde), para uso nos pacientes queimados, informa.


O médico afirma que, em tese, o Brasil deveria ter 13 bancos de peles, segundo dados do Ministério da Saúde, mas, na prática são apenas três (São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul), que não suprem 1% da necessidade de pele do país. “Isso em um país onde 97% dos pacientes queimados não têm plano de saúde”.

Os resultados positivos apresentados até o momento têm atraído profissionais de outras áreas. Pesquisadores da urologia, otorrinolaringologia, cardiologia e odontologia, entre outros, já têm projetos em andamento.

Uso veterinário

Onças, ursos, leão da montanha, tamanduás, sucuris, queixadas, veados, antas, lobos, um jacaré, um tuiuiú, cachorros, gatos e uma égua. São muitos os animais que já se beneficiaram da técnica de recuperação de queimaduras com pele de tilápia desenvolvida inicialmente para tratar ferimentos em humanos.

Vítimas de grandes incêndios e com lesões extensas, eles foram atendidos em missões especiais da equipe de veterinária do grupo de estudos liderado pelo Dr. Edmar Maciel, da UFC, idealizador do projeto.

Equipes veterinárias especialmente capacitadas para o procedimento foram enviadas ao Pantanal, Uberaba (MG) e até mesmo para a Califórnia, nos EUA, para realização de salvamentos.

“O procedimento é o mesmo utilizado em humanos. As principais vantagens são a abundância de colágeno e o fato de o procedimento ser menos doloroso ao paciente, pois necessita de bem menos troca de curativos”, informa a veterinária Behatriz Odebrecht, que coordena a área de veterinária do grupo de estudos liderado por Edmar Maciel.

Ela explica que, enquanto o tratamento usual requer trocas diárias dos curativos, com a pele de tilápia é possível aguardar até dez dias. “O paciente se desgasta menos, há menos risco aos veterinários, no caso dos animais selvagens, e economia com mão de obra”, completa.

Paralelamente, o tratamento com medicamentos é o usual, feito com antibióticos, para evitar infecções. O tempo de recuperação varia de acordo com a extensão das lesões. A especialista comenta que, em humanos, estudos apontaram que os pacientes que utilizaram a pele de tilápia precisaram de menos analgésico. Acredita-se que o mesmo aconteça com os animais.


Animais vítimas de incêndios florestais recebem tratamento com a pele de tilápia — Foto: Departamento de Pesca e Vida Selvagem da Califórnia


Como no uso humano, não há contraindicações. No momento, o uso em animais foi realizado em caráter emergencial nas missões, mas a UFC não tem ainda capacidade de produção das peles para atender à demanda nacional.

“Existe uma necessidade muito grande de apoio aos animais de diversas espécies e há potencial de uso da pele de tilápia nas diferentes especialidades da veterinária”, aponta a pesquisadora.


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