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  • Foto do escritorSemana do Pescado

O menor entre os maiores: a potência do camarão em Sergipe


Imagens: Matheus Costa


Por Bruno Albuquerque

Menor estado da federação, Sergipe é riquíssimo em recursos naturais. Banhado a leste pelo oceano Atlântico e recortado por seis bacias hidrográficas (as bacias dos rios São Francisco, Japaratuba, Sergipe, Vaza-Barris, Piauí e Real), o estado conta com abundante volume de água, o que, associado a fatores climáticos peculiares, favorece a prática da aquicultura, que é o cultivo de organismos que, quando vivem em condições naturais, atravessam o ciclo de vida total ou parcialmente em meio aquático.

Dentro desse cenário aquático pujante, repleto de vida e de riquezas, um ramo específico da aquicultura tem se mostrado muito promissor e ganhado destaque no estado, atraindo cada vez mais adeptos por ser extremamente rentável; oferecer um impacto muito baixo à natureza (mas, ao mesmo tempo, ajudando a preservá-la) e apresentar um grande potencial para alavancar a realidade socioeconômica dos municípios do território sergipano: a carcinicultura.


O Nordeste no Topo

Apesar do grande potencial produtivo brasileiro, a criação nacional corresponde, apenas, a 1% da produção mundial de camarão, o que revela o quanto este mercado é pouco explorado no país. Já no âmbito global, a China é o maior produtor de camarão do mundo, com uma produção que corresponde a 33% de todo o camarão criado no planeta.


A Região Nordeste é a que mais produz e exporta camarão no país, vendendo principalmente para Estados Unidos, Malásia, Vietnã, Emirados Árabes, China e Hong Kong. Em 2020, a carcinicultura nordestina foi responsável por 99,6% da produção brasileira de camarão em cativeiro. Das 15 maiores empresas do ramo do camarão no Brasil, 14 são do Nordeste, um dado que evidencia a relevância da região para este mercado.




Segundo dados divulgados pela Pesquisa Pecuária Municipal (PPM), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Sergipe foi o quarto maior produtor de camarão do país em 2020, tendo produzido 4,5 milhões de quilogramas em 2021. A produção cresceu em mais de 30% no decorrer dos anos, colocando o estado atrás somente do Ceará (33.713.719 kg), Rio Grande do Norte (21.190.655 kg) e Paraíba (6.242.500 kg), respectivamente.

Com base nos dados do Observatório de Sergipe, referentes ao ano de 2019, a produção sergipana está concentrada, principalmente, nos municípios de Nossa Senhora do Socorro (1.120 toneladas/ano), Brejo Grande (832 toneladas/ano), São Cristóvão (446 toneladas/ano), Santo Amaro (197 toneladas/ano) e Indiaroba (165 toneladas/ano). Com os avanços da atividade no estado, estima-se que Socorro tenha produzido cerca de 2 mil toneladas e, Brejo Grande, cerca de 1.600 toneladas em 2022.


A magia do camarão sergipano e seu potencial de transformação socioeconômica

A criação de camarão em cativeiro tem ganhado cada vez mais adeptos, se popularizando e desenvolvendo tanto que, atualmente, a nível mundial, o volume de camarão produzido em cativeiro supera o pescado no mar.

Conhecido como camarão cinza, ou pelos nomes comerciais de camarão de patas brancas (ou camarão branco do pacífico), o camarão criado em Sergipe é o da espécie Litopenaeus vannamei, endêmica da costa oriental do Oceano Pacífico. Apesar de vender grandes quantidades para outros estados, grande parte da produção sergipana abastece o mercado interno. Muito do camarão cultivado em Sergipe acaba sendo absorvido pelos próprios municípios produtores e cidades do entorno; pela capital Aracaju e Região Metropolitana; além de estados vizinhos, como Alagoas, Bahia e até mesmo Natal, onde o crustáceo é beneficiado e posteriormente, depois de enriquecido, revendido para outros mercados.


Nos últimos anos,a produção sergipana de camarão vem apresentando uma evolução crescente, com níveis relativamente estáveis. Entretanto, pode-se observar um maior destaque da atividade nos municípios de Nossa Senhora do Socorro, que ocupa o posto de maior produtor de camarão do estado, com 1,6 milhão de quilogramas produzidos em 2021, seguido por Brejo Grande, que produziu 928.800 mil quilogramas no mesmo período, segundo dados do IBGE.

“A carcinicultura é uma atividade muito importante para Sergipe, do ponto de vista econômico e ambiental e pode ser considerada uma das atividades menos impactantes e que tem maior lucratividade. Sergipe é um estado atípico: quase todo o litoral norte é uma reserva biológica e o litoral sul é uma Área de Proteção Ambiental (APA), logo não existem muitas atividades produtivas que possam sustentar as populações dessas áreas, de forma que a carcinicultura, assim como outras atividades ligadas à aquicultura, são bastante importantes para poder fornecer emprego e renda para essas populações”, diz José Milton Barbosa, engenheiro de pesca, Doutor em Zoologia e professor da Universidade Federal de Sergipe.

Clique aqui e ouça o áudio completo do professor de José Milton Barbosa.


Lição de vida: "Uma carteira assinada não é tudo"

Se, para a aquicultura, a carcinicultura representa um ramo específico da atividade, para o produtor Manoel Messias dos Santos, o “Seu Messias”, de 67 anos, a atividade representou a possibilidade de transformar a própria vida, trazendo horizontes bem mais promissores, como liberdade financeira e perspectiva de ascensão social.

A carcinicultura leva riqueza para o interior sergipano e movimenta a economia .


Seu Messias, que reside e mantém seu viveiro na zona rural do Conjunto Fernando Collor, localizado em Nossa Senhora do Socorro, foi tão bem-sucedido em sua criação, que se tornou o presidente da Associação dos Carcinicultores do município.

Antes de ser carcinicultor, ele era motorista de ônibus, até que resolveu trocar o volante e o trânsito agitado, pela lida diária com o camarão e o contato com a natureza. Messias, então, passou a ser produtor de uma das iguarias mais consumidas e valorizadas pela gastronomia internacional, trocando a condição de funcionário assalariado, pela posição de empregador da própria família.

Ainda em Socorro, o criadouro responsável pela maior produção do município pertence a uma mulher. Maria Paulina Duarte da Silva, de 68 anos, representa a força e a coragem da mulher sergipana. Acometida por um problema de saúde que afetou sua vida e lhe trouxe alguns lapsos de memória, “Dona” Paulina tem uma relação de amor com o seu viveiro, do qual cuida com o auxílio do seu encarregado, Marcos. Muito mais que mera atividade econômica, ela vive uma verdadeira história de amor à primeira vista com a carcinicultura, um romance que vem gerando muitos frutos. Toneladas de frutos do mar a cada três meses.


A qualidade para além da quantidade

Devido à relevância da atividade para o município e seus habitantes, a prefeitura de Socorro desenvolve, através da Secretaria de Agricultura, Irrigação e Pesca, um constante trabalho de acompanhamento, fiscalização e orientação junto aos criadores da região, visando garantir a qualidade do processo produtivo e, ao mesmo tempo, salvaguardar o equilíbrio ambiental.


Do arroz para o camarão: a carcinicultura e a reinvenção de Brejo Grande

Segundo maior produtor de Sergipe, o município de Brejo Grande, na região do Baixo São Francisco, viveu uma verdadeira revolução após a introdução e o desenvolvimento da carcinicultura na cidade que, tradicional e historicamente, sempre se destacou pela produção de arroz.

Entretanto, uma longa estiagem acometeu a região do baixo São Francisco em determinada época, provocando uma baixa significativa no nível do rio São Francisco. Em consequência, houve o aumento da salinidade da água, o que prejudicou o cultivo do arroz, que não tolera águas salinas. O aumento da salinidade do rio, somado à febre do rato, ocorrida em meados de 2010, forçou os produtores de arroz a buscarem por alternativas à rizicultura. A carcinicultura, então, foi a bola da vez e como a cidade reunia todas as condições necessárias para o cultivo do camarão, não demorou muito para que o crustáceo se tornasse “a menina dos olhos” de Brejo Grande.

Vindo de uma família de rizicultores da cidade, Ícaro Frei de Bento é geógrafo, além de criador de camarão. Em parceria com a prefeitura, ele atua como conselheiro e orientador junto aos criadores da região, formando uma rede que é fundamental para o sucesso de Brejo Grande na carcinicultura.


Na água doce não é mole não

O carcinicultor Sebastião dos Santos trabalhava como vigilante até que, numa tentativa de assalto, sofreu um acidente de trabalho que lhe deixou sequelas permanentes. “Bastião”, como é conhecido na cidade, resolveu então empreender com o pai. Hoje ele é coproprietário de um viveiro de camarão e cultiva o crustáceo juntamente com toda a família.

Apesar de possuir uma boa área de viveiros, Bastião e a família, assim como os demais carcinicultores do município, vêm passando por problemas em suas produções, que têm diminuído a cada despesca, em função da baixa salinidade que a água do Rio São Francisco tem apresentado nos últimos anos.

As causas estão diretamente associadas a fatores climatológicos. O aumento no volume das chuvas que incidiram em Sergipe durante os dois últimos anos fez subir o nível do rio e, em consequência, reduzir drasticamente os índices de salinidade da água, o que dificulta a adaptação do camarão aos viveiros e prejudica o desenvolvimento e a sobrevivência do crustáceo. Por esta razão, nos períodos com maior incidência de chuvas, a produção de camarão em Brejo Grande é parcialmente interrompida, pois muitos produtores deixam a carcinicultura de lado e migram para o arroz, até que a salinidade da água suba novamente.


Na mão dos atravessadores: a epopéia do carcinicultor sergipano e a esperança de dias melhores

Além da redução nos níveis de salinidade da água do rio, os criadores de Brejo Grande enfrentam outros problemas, comuns também aos carcinicultores de Socorro e de todo o território sergipano: os atravessadores.

Por ser uma atividade em expansão no estado e uma das formas de negócio mais lucrativas no ramo da piscicultura, associado ao fato de que o produtor sergipano não encontra, no poder público, o apoio de que necessita para alavancar suas produções, o mercado da carcinicultura acaba atraindo os olhos de comerciantes que, com muito oportunismo, compram o camarão sergipano a um preço muito baixo e o revendem a valores bem mais elevados para outros mercados, que repassam esse camarão novamente. Muitas vezes, o camarão sergipano passa por dois, às vezes três atravessadores diferentes. Como resultado, este camarão vai às prateleiras para ser vendido ao consumidor final, no mínimo, pelo triplo do valor. Às vezes, até o quádruplo.


O camarão criado em Sergipe é o da espécie Litopenaeus vannamei, o camarão cinza.


O carcinicultor Silvano Ferreira Machado, de Brejo Grande, tem visto sua produção diminuir significativamente nos últimos anos. Com a diminuição da margem de lucro, Silvano, assim como outros criadores, não conseguem investir o suficiente na estrutura necessária para dominar todo o processo da cadeia produtiva do camarão, problema que também atinge aquicultores de outras espécies. Como o custo de produção tem aumentado muito depois da pandemia, sobretudo o preço da ração e dos insumos, só é possível investir na produção seguinte. Silvano, então, tem que vender mais barato para os atravessadores.


Um mal (des)necessário

O engenheiro de pesca Humberto Eng, que é coordenador da Câmara de Pesca e Aquicultura vinculada a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Sergipe (Fecomércio), fez uma breve análise sobre o mercado local, suas carências, necessidades e falou da ação dos atravessadores.

“Hoje, o grande gargalo de se ter o camarão de Sergipe nas prateleiras dos grandes mercados é que nós não beneficiamos o nosso produto. Muito camarão daqui vai para Natal, Santa Catarina, Bahia e retorna com o preço já beneficiado. Temos que atrair para Sergipe a área de beneficiamento e a certificação do nosso produto. Hoje, o produtor de pescado vive na mão do atravessador, que é um mal necessário. Temos que transformar esses atravessadores em grandes atacadistas, porque ganha toda a cadeia produtiva”, disse o engenheiro.

Para ouvir a opinião do coordenador da Fecomércio, Huberto Eng, clique aqui.


Humberto Eng ressalta que os atravessadores acabam lucrando bem mais do que os produtores, que são os que mais investem no camarão. Por falta de estrutura, como câmaras frias para armazenamento do pescado e um centro de beneficiamento, os carcinicultores são obrigados a vender o camarão a um preço baixo, logo que é despescado, pois é uma mercadoria extremamente perecível e eles não dispõem de meios para armazenar toneladas de camarão. Os atravessadores, a redução da salinidade da água (no caso de Brejo Grande), a falta de uma maior estrutura e a ausência de políticas públicas que realmente fomentem o mercado e alavanquem a produção sergipana estão entre os maiores problemas enfrentados pelos criadores do estado.


Outro fator que favorece a ação dos atravessadores e contribui para que a atividade não se desenvolva a contento é a falta de uma política fiscal por parte do governo. O atravessador se vale dessa brecha e apresenta uma nota com o valor de ICMS praticado em outro estado. Dessa forma, Sergipe deixa de arrecadar, deixando a contribuição para outro estado.

“O Estado pode ter uma boa arrecadação a partir da produção aquícola. A produção de peixes e camarão pode gerar ICMS, o que não está ocorrendo no momento, porque ainda não há uma forma de captar esses recursos, de o Estado viabilizar essa arrecadação. Essas atividades ligadas à aquicultura, especialmente carcinicultura, têm mudado o perfil econômico em várias regiões, como em Socorro, Indiaroba, São Cristóvão e, especialmente, em Brejo Grande, onde a rizicultura padeceu com o aumento da salinidade e a carcinicultura a substituiu de forma muito importante, fazendo com que houvesse uma redução da degradação ambiental e uma alta lucratividade para os produtores”, diz o professor da UFS, José Milton Barbosa.

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